quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Isso é jornalismo?

O jornalismo vive uma grande crise. Embrionária. Crise semelhante ao qual vimos na classe política. A da Ética e da Moral. Nossos formadores de opinião, conglomerados nos grandes meios de comunicação parecem estar perdendo para o marketing, a publicidade. Viramos um simples refém do capitalismo. As empresas jornalísticas, falidas em sua maioria, viram alvos fáceis das grandes multinacionais, afim de se promoverem.

O leitor deve estar se perguntando onde quero chegar. Vou explicar. A nova moda agora são as “matérias pagas”. Isso já funciona a tempo nos pequenos jornais. Muita gente no meio jornalístico sabe que existe. O desembolso, por parte de órgãos governamentais e políticos, para que jornais e revistas publiquem essas reportagens de interesse específico.

Essa pratica é condenada por todos os jornalistas éticos e pela Associação Nacional dos Jornais. No entanto, ela não é ilegal: a "reportagem" encomendada recebe o mesmo tratamento na Lei que os demais anúncios.

O que me deixa estupefato – daí o motivo deste artigo – é que as grandes empresas, tradicionais em nosso país em se engajarem como defensora dos ideais da sociedade, parece estar adotando tal postura.

O jornal Estado de São Paulo, em sua edição no último domingo de julho (27), teve como capa promocional entregue aos publicitários encarregados de vender os carros Nissan. Tal ato aconteceu também no jornal O Globo, na edição do dia 04 de agosto. Na ocasião, a Eletrobrás (anunciante), aproveitou-se, de forma bem simples, com aparência inocente, cívica, politicamente correta, para auto se promover. Utilizou-se de um assunto que vem sendo discutido constantemente pela sociedade e a mídia. O meio-ambiente.

Dedicaram três páginas inteiras (5, 11 e 19) montadas com matérias já publicadas recentemente no jornal carioca, com todas as características de reportagem apurada. Inclusive com os selos utilizados habitualmente pelo jornal ("Política Ambiental", "Defesa do Consumidor" e "Impunidade é Verde"). O carimbo "Publicidade" não está no alto, destacado, mas confunde-se com outros dizeres.

Todos os indícios de matéria jornalística estavam presentes. Até o nome de repórteres, além de imagens desenhadas de copas de árvores. Uma das matérias revela que a Eletrobrás está plantando 600 mil mudas de árvores no entorno das suas usinas. Quanta bondade.

Daí fica a pergunta. Quanto será custou essa palhaçada? A matéria da montadora Nissan, publicada no Estadão, foi paga por uma empresa privada que resolveu torrar os seus lucros no Brasil. Parabéns a ela. E ao Estadão, que lucrou com isso.

Já a grande reportagem publicada no Globo foi pago por uma estatal. E deve ter custado 10 vezes mais do que as 600 mil mudas plantadas no entorno das usinas.

O que vimos nas redações dos grandes jornais brasileiros hoje é um grande número de marqueteiros e publicitários com a dupla missão de fazer do jornalismo, publicidade e da publicidade, jornalismo. E os interesses da sociedade? Nenhum.

Estamos em tempo de crise. A discussão sobre o jornalismo precisa ser levada em conta. Qual é a sua real função? Acredito que seja oportuno o debate sobre a possibilidade da existência do jornalismo público, ainda que num ambiente dominado pelas leis de mercado. Do contrário, a sociedade continuará à mercê do jornalismo tradicional, enfraquecido pelos imperativos imediatistas do faturamento, ou de algum neologismo que afaste a imprensa da formulação de interpretações do mundo que tenham compromisso com a emancipação dos seres humanos. Assim, continuaremos a presenciar a corrupção da cidadania.

Imagem: divulgação

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